Cortes & Recortes
 

 
Colagem de textos.
 
 
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Afrodite sem Olimpo
Âncora Digital
Maricleide de Jesus
Mundo Podre
Prosa Caótica
Releituras
RevelAÇÕES
Vadiando


 
 
27.1.05
 
Comente e aumente a lista:

Coisas que se atraem...
Dedinho do pé e ponta de móveis.
Xixi e a tampa do vaso.
Café preto e a toalha branca.
Tampa de creme dental e ralo de pia.
Mãos e seios.
Olhos e bunda.
Homem e cerveja.
Leite fervendo e fogão limpinho.
Nariz e dedo.
Queijo e goiabada.
Carro de bêbado e poste.
Mulher e vitrines.
Natal e show do Roberto Carlos.
Tornozelo e pedal de bicicleta.
Chave trancando a porta e telefone tocando.
Tampa de caneta esferográfica e orelha.
Mau-humor e segunda-feira.
Vinho tinto e toalha de mesa...
Pilha de pratos e bandeja...
Camisa branca e molho de tomate...
Recortado por:
26.1.05
 
Texto de abertura do programa MAIS VOCÊ, em 26/01/2005

Que Deus não permita...
Que deus não permita que eu perca o romantismo, mesmo eu sabendo que as rosas não falam.
Que eu não perca o otimismo, mesmo sabendo que o futuro que nos espera não é assim tão alegre.
Que eu não perca a vontade de ter grandes amigos, mesmo sabendo que, com as voltas do mundo, eles acabam indo embora ...
Que eu não perca a vontade de ajudar as pessoas, mesmo sabendo que muitas delas são incapazes de ver, reconhecer e retribuir.
Que eu não perca o equilíbrio, mesmo sabendo que inúmeras forças querem que eu caia.
Que eu não perca a vontade de amar, mesmo sabendo que a pessoa que eu mais amo, pode não sentir o mesmo sentimento ...
Que eu não perca a luz e o brilho no olhar, mesmo sabendo que muitas coisas que verei no mundo, escurecerão meus olhos...
Que eu não perca a garra, mesmo sabendo que a derrota e a perda são dois adversários extremamente perigosos.
Que eu não perca a razão, mesmo sabendo que as tentações da vida são inúmeras e deliciosas.
Que eu não perca o sentimento de justiça, mesmo sabendo que o prejudicado pode ser eu.
Que eu não perca a beleza e a alegria de ver, mesmo sabendo que muitas lágrimas brotarão dos meus olhos e escorrerão por minha alma...
Que eu não perca o amor por minha família, mesmo sabendo que ela muitas vezes me exigiria esforços incríveis para manter a sua harmonia.
Que eu não perca a vontade de doar este enorme amor que existe em meu coração, mesmo sabendo que muitas vezes ele será até rejeitado.
E acima de tudo...
Que eu jamais me esqueça que, com fé, um pequeno grão de alegria e esperança dentro de cada um é capaz transformar qualquer coisa!!!
Recortado por:
22.1.05
 
A fruta aberta
Thiago de Mello



Agora sei quem sou.
Sou pouco, mas sei muito,
porque sei o poder imenso
que morava comigo,
mas adormecido como um peixe grande
no fundo escuro e silencioso do rio
e que hoje é como uma árvore
plantada bem alta no meio da minha vida.
Agora sei as coisa como são.
Sei porque a água escorre meiga
e porque acalanto é o seu ruído
na noite estrelada
que se deita no chão da nova casa.
Agora sei as coisas poderosas
que valem dentro de um homem.
Aprendi contigo, amada.
Aprendi com a tua beleza,
com a macia beleza de tuas mãos,
teus longos dedos de pétalas de prata,
a ternura oceânica do teu olhar,
verde de todas as cores
e sem nenhum horizonte;
com tua pele fresca e enluarada,
a tua infância permanente,
tua sabedoria fabulária
brilhando distraída no teu rosto.
Grandes coisas simples aprendi contigo,
com o teu parentesco com os mitos mais terrestres,
com as espigas douradas no vento,
com as chuvas de verão
e com as linhas da minha mão.
Contigo aprendi
que o amor reparte
mas sobretudo acrescenta,
e a cada instante mais aprendo
com o teu jeito de andar pela cidade
como se caminhasses de mãos dadas com o ar,
com o teu gosto de erva molhada,
com a luz dos teus dentes,
tuas delicadezas secretas,
a alegria do teu amor maravilhado,
e com a tua voz radiosa
que sai da tua boca
inesperada como um arco-íris
partindo ao meio e unindo os extremos da vida,
e mostrando a verdade
como uma fruta aberta.
Recortado por:
13.1.05
 
Eu sou apaixonada pelas crônicas da Adriana Falcão, quem vem aqui há algum tempo já sabe. Adoro a simplicidade de seus textos; apesar de profundos e "feitos para pensar". Este li na Veja e, como de hábito, recortei e colei aqui na minha página. Espero que gostem.

Um dia de rainha
Adriana Falcão

Que se levante o sol.
Devagarzinho.
Decreto uma manhã azul para aqueles que gostam de praia, e uma outra cinzenta para quem tiver preferência por nuvem.
Comuniquem oficialmente à Presidência da República que o mandato do dia é meu, e não se esqueçam de anexar em letras maiúsculas, porque eu mandei dizer que é assim: HOJE TODO MUNDO MANDA.
Cada desejo é uma ordem, à exceção dos desejos de vingança, e todo pedido será prontamente atendido.
Interditem os gritos.
Interrompam as farpas.
Eliminem as pragas.
Despertem as almas.
Para os finais de amores, o exílio.
A palavra nefasto está terminantemente proibida.
Avisem à morte que hoje é dia de folga.
Em compensação, a sorte estará atarefadíssima.
Façam banir o que for dor.
Estão cancelados os crimes.
Exijo que os jornais de amanhã só ofereçam boas notícias.
Estão vedados os julgamentos, norma que beneficiará o julgador ¿ de quem será arrancado o fel ¿ e o julgado ¿ a quem será devolvida a liberdade de experimentar, acertar, errar, aprender, e seguir em frente.
A responsabilidade de todo e qualquer ato praticado sob a jurisdição das minhas vinte e quatro horas caberá única e exclusivamente ao seu autor.
Enquanto vigorarem meus desejos, a verdade não tem dono.
Considere-se expulso de cada minuto aquele que for indelicado.
Junto com estes, afastem os aproveitadores, os corruptos, os bajuladores e os chatos.
Peçam aos golfinhos dos mares que se manifestem e ordenem aos mares que se enquadrem em toda e qualquer janela, nos altos sertões, inclusive.
À tarde, não serão admitidas tristezas, a não ser aquelas que a gente acalenta com alegria.
Exterminem as topadas. Os soluços. Os pecados. Os enganos. Pratiquem a arte do assovio. Desaprisionem as lembranças. Portem estandartes coloridos. Afugentem as invejas. Dissipem as dúvidas. Expatriem as culpas. Socorram os traídos. Promovam reencontros. Dêem-se, aos pares, as mãos, e haja rodopio.
Às 3 em ponto, em edição extraordinária, chegará a novidade: todas as notas de dinheiro foram devidamente embaralhadas e redistribuídas. Economistas, sociólogos e teóricos ficarão malucos, antes de entrar no jogo, quando então darão boas risadas, como em toda brincadeira divertida.
Reivindico um pôr de sol estonteante jamais visto nem em filme de cinema.
E que a noite traga brisa e que a brisa atice o fogo.
Mandem acender quatro luas no céu e convoquem os casais de namorados, em seguida.
Se for preciso, refaçam as contas para que não sobre ninguém sozinho.
Previnam à indiferença que desapareça, por obséquio, e solicitem a presença dos fascínios.
Informem às mãos que se procurem, às bocas que se beijem, aos corpos que se endoidem.
Estão intimados os batimentos cardíacos e os frios na barriga.
A paixão acaba de ser nomeada primeira-ministra da madrugada.
A partir de meia-noite, vale cometer loucura, apagar passado, arder em chamas, subir pelas paredes, e até morder, desde que provoque arrepio.
E quando outro dia nascer, e tudo voltar a ser como era antes, espalhem aos quatro ventos a profecia do poeta, até que ela se transforme em lei irrevogável:
"O homem será Deus, do seu verdadeiro tamanho, com a cabeça nos céus, com os séculos nos olhos. E os deuses estarão nas ruas". (Oduvaldo Vianna Filho)
Recortado por:
4.1.05
 
Quase não venho mais aqui publicar nada. Mas sempre passo para visitar meus links amigos e, numa dessas passadas, descobri o Megeras Magérrimas. Gratíssima descoberta. De lá copiei o texto do Frei Betto para ser um de meus recortes queridos.

"Feliz Ano Novo aos que tiveram perdas no ano velho e ainda assim recolhem pedras em suas aljavas. Aos colecionadores de afetos que jamais permitem que suas lagartas se transmutem em borboletas. Aos cínicos repletos de palavras sem raízes no coração.

Feliz Ano Novo às bordadeiras de emoções, que gastam a vida desfiando intrigas e agulhando a boa fama alheia. Aos céticos desprovidos de horizontes e aos que debruçam sobre a própria solidão para contemplar abismos. Aos ressuscitadores de desgraças, aos que se escondem em seus sapatos e aos idólatras que cultuam os poderosos.

Feliz Ano Novo aos que asfixiam a criança dentro de si e aos que se fantasiam de palhaço para camuflar tristezas. Aos que gastam a vida contando dinheiro, sempre em débito com a amor. Aos que acumulam bens e desperdiçam virtudes, ajuntam poder e semeiam mágoas, galgam a fama e pisam em sentimentos.

Feliz Ano Novo aos sonegadores de esperanças e aos que crêem apenas nos valores da Bolsa. Aos mancos de bondade, cegos de utopias, ébrios de ambições e medrosos perante a ousadia de viver. Aos que têm asas e não sabem voar, são águias e ciscam como galinhas, guardam em si um tigre e miam como gatos.

Feliz Ano Novo aos que se agasalham com gelos e jamais dão ouvidos à sabedoria do fogo. Aos que alugam a própria dignidade e se revestem da ideologia do consenso. Aos que escondem montanhas debaixo da cama, congelam estrelas no bolso e torcem o arco-íris até sangrar.

Feliz Ano Novo aos que exibem no pedestal de sua mente o próprio corpo, jejuam por razões estéticas e mendigam aos olhos alheios a moeda falsa da admiração convencional. Aos que ficam inebriados diante da paisagem televisiva e, como Carolina, vêem o mundo passar na janela eletrônica. Aos que proferem palavras furtivas, segredam mentiras, sonham com elefantes de papel e tentam fugir da própria sombra.

Feliz Ano Novo aos voluntários da servidão, aos que amam amar amores e desamores alheios e nunca experimentam o êxtase de uma paixão inefável. Aos crentes desprovidos de fé, aos políticos vazios de senso cívico, aos democratas que exaltam medidas autoritárias.

Feliz Ano Novo aos que fazem de seus dias tijolos de catedrais escuras, navegam em pingo d¿água e jamais perdem tempo com uma criança. Aos que cimentam árvores, fazem pontaria em orquídeas e pintam o verde de marrom. Aos que jamais escutam o silêncio, vociferam palavras sem nexo e tratam seus semelhantes como os motoristas reclamam dos buracos na estrada.

Feliz Ano Novo aos que cercam suas almas com arame farpado, abrem com foices seus caminhos na vida e, ainda assim, não sabem que rumo tomar. Aos que traçam labirintos em seus mapas imaginários, enfeitam a vida com buquês de impropérios e rasgam o ventre da água com os seixos adormecidos no leito de seus pesadelos.

Feliz Ano Novo aos que cavalgam em hipocampos grávidos de dinamites, multiplicam teorias para subtrair a prática e escondem a alegria no fundo da gaveta.

Feliz Ano Novo aos que se julgam imortais, incensam a própria imagem e tocam címbalos aos cifrões que lhes servem de prisão. E aos que estão terminantemente proibidos de tomar nas mãos vazias de dinheiro um prato de comida.

Feliz Ano Novo a todos os infelizes que fazem de suas vidas Luas minguantes e se vestem com o escafandro de seus temores, afogados no sal de um oceano ressecado. Novos lhes sejam o ano, a vida e o espírito, revertidos e revestidos de ensolaradas esperanças." (Frei Betto)
Recortado por:

 

 
   
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